CARTA
ABERTA DO COLETIVO CAMARADAS
O tratamento informal de assuntos que deveriam ser tratados politicamente, com a mediação dos grupos, é algo comum na esfera política goianiense, e aflige igualmente o campo da militância autônoma na qual este coletivo se reconhece. Todavia, o Camaradas segue propondo tentativas de superação das velhas práticas corrosivas à militância, e não poderia ser diferente com o problema em questão. Sempre nos pautamos na análise da própria realidade para, só assim, agirmos com ações baseadas em nossos princípios. Desta forma, não temos respostas prévias e acabadas para as diversas situações, e nem nos propomos a estabelecer diretivas e orientações fechadas para tudo quando ocorrem tais situações. No caso em questão, sabemos da necessidade da fala, da escuta, do acolhimento, do combate e do enfrentamento à violência contra a mulher, assim como da devida responsabilização. Entretanto, o modo de proceder com essas demandas próprias da situação não estava previamente dado ao coletivo, exatamente porque partimos do pressuposto em se pensar formas e mecanismos que sejam coerentes com a leitura mais justa da realidade. Foi apenas nesse sentido que o coletivo fez uso do tempo que era necessário para assimilar, compreender e pensar sobre a forma efetiva para lidar com a situação. Esta nota, portanto, é fruto deste processo.
Não há novidade na constatação de que, infelizmente, o abuso e o assédio sexual contra mulheres são constitutivos da nossa realidade social, a tal ponto de serem naturalizados e relativizados de maneira constante. Cotidianamente, milhões de mulheres no Brasil sofrem com essa realidade, e sabemos que a maioria acaba se omitindo por causa dessa naturalização e relativização cotidiana do abuso, o que invariavelmente gera a própria dificuldade em compreender a situação de violência que ocorreu. A deslegitimação social, o próprio sistema jurídico em tais situações, provocam o isolamento e o abandono da vítima, que tem que lidar sozinha com os traumas físicos e psicológicos, os aspectos legais e, via de regra, com as intimidações de vários níveis promovidas por seus agressores.
Ora, os coletivos de esquerda não são intocáveis por esta realidade. Apesar do compromisso em transformá-la, sabemos que não existem espaços puros e livres das contradições sociais presentes na sociedade capitalista. Mesmo assim, assumir que a realidade é da forma como a apresentamos aqui, não é, de modo algum, o mesmo que naturalizá-la; trata-se de, tão somente, assumir que tais problemas existem e continuarão a existir nos espaços em que nos inserimos. É por isto que temos que desenvolver, e aprimorar, meios efetivos para lidar com a situação, nos esforçando sempre no sentido da prevenção e do combate à violência contra a mulher. Nosso papel neste processo é, justamente, esboçar resoluções de combate à violência contra a mulher, que possam sempre apontar para uma alternativa emancipatória.
Embora desejássemos que essa fosse a prática efetiva dos diversos grupos de militância, o que notamos é que a omissão, o imobilismo e a transformação de denúncias em questões secundárias, além da redução de tais questões à esfera privada, têm conformado a atuação das organizações nesse aspecto. Diante desta situação, é recorrente que a mulher se isole e acabe por se afastar da militância. Ao mesmo tempo, e em um sentido oposto a esse imobilismo, há um engessamento do modo de lidar com diferentes casos que culmina, quase sempre, no escracho e na expulsão. Essas medidas são tidas, nesses casos, como respostas prévias, em que se nega qualquer outra possibilidade que vislumbre formas de transformação emancipatória efetiva dos envolvidos. No caso que diz respeito a este coletivo, nos propomos a discutir a situação e a pensarmos medidas concretas, ainda que tardiamente, que possa romper com esses lugares-comuns.
Entretanto, nos vimos diante de uma situação difícil para que avançássemos com uma proposta de resolução. O que apresentamos no início desta carta já estava em curso: um escracho informal vinha gerando suas consequências, como a exposição dos envolvidos e de terceiros, e também a criação de uma situação de intimidação generalizada, provocada pelas informações desencontradas e pelo aumento da dimensão do problema. Diante dessa escalada violenta do escracho informal, os envolvidos acabaram por ficar presos emocionalmente a uma nova situação, ao invés de haver qualquer avanço que apontasse para um efetivo acolhimento, escuta e possíveis mudanças. O sentido destrutivo do desenrolar dos fatos estava dado.
Desta forma, ao mesmo tempo em que repudiamos ações de abuso e assédio sexual, repudiamos também o escracho informal que se encontra em andamento, que em nada contribui para a prevenção e para o enfrentamento de situações de violência. O que notamos é que essa prática fomentou, tão somente, o isolamento social, as ameaças, e o sofrimento dos envolvidos sem se ater ao caso em si. Acreditamos, assim, que essa forma de resolução do atual problema, que se dá de maneira difusa e com responsabilidade a princípio inimputável, está sendo nociva e caminha no sentido de uma destruição individual com a qual não concordamos. Ressalta-se, nesse sentido, que é notável a reprodução da denúncia sem o seu conhecimento efetivo, o que é constatado pela própria multiplicidade do que é relatado.
No contexto em que nos encontramos, a proximidade e a disposição dos envolvidos possibilitou a criação de respostas outras que não as mencionadas até aqui. A responsabilização individual de um dos envolvidos, pelas possíveis condutas problemáticas, se deu na forma de compromisso com medidas práticas de mudanças, e também nos responsabilizamos coletivamente em tratar politicamente da questão. Propomos-nos a agir como instrumento prático para a atenuação do problema por meio do engajamento ativo das pessoas envolvidas. Esse engajamento correspondeu à seguinte fórmula, encontrada para enfrentar essa situação específica: de um lado, apresentou-se a possibilidade da envolvida de posicionar-se e de agir frente à sua própria situação, sendo desde já uma prática de fortalecimento da mulher; e, do outro lado, a possibilidade de escuta e de assunção de responsabilidades pelas ações apontadas, assim como o comprometimento com medidas práticas e específicas de mudança efetiva do certos comportamentos.
Nesses termos foi desenvolvida a possibilidade de, após acordo prévio entre os envolvidos, uma conversa presencial franca e aberta. Tais medidas tomadas se aplicaram para o caso singular em questão, não havendo qualquer defesa de generalização. Os detalhes dessa resolução somente dizem respeito aos envolvidos, buscando-se assim evitar uma maior exposição pública da que já estão sendo submetidos. A exposição generalizada, sem qualquer mudança prática, só contribuiu para a espetacularização do caso. Uma vez tornada possível a participação dos envolvidos junto ao coletivo, acreditamos ter se tornado possível contribuir com o avanço da superação do problema. Cremos, com isso, que o coletivo pode tornar tal superação possível, e não agentes externos que, não raro, usam do artifício da criação de inverdades e da prática da calunia para acirrar os ânimos e provocar ainda mais conflitos e polarização, desgastando ainda mais todos os envolvidos.
Dessa forma, reiteramos nosso posicionamento contrário à violência sofrida pelas mulheres em todos os espaços sociais, tendo os espaços de militância como principal objeto de reflexão para este caso, buscando por todos os meios possíveis evitar o silenciamento e a deslegitimação como saídas comuns. Comprometemo-nos, portanto, a enfrentar tais situações sempre de modo coletivo, e com base em nossos princípios. Reiteramos, também, o nosso repúdio às atitudes de pessoas envolvidas na militância que utilizam de práticas nocivas que, longe de estarem interessadas na resolução dos problemas colocados, atuam para se promoverem e/ou anularem sujeitos políticos, o que diz respeito a pessoas que usaram intencionalmente da denuncia para benefício próprio, político ou pessoal, não dizendo respeito as pessoas que fizeram a denúncia. Por fim, a forma com que a exposição deste caso se desenrolou explicita a necessidade do aprofundamento no debate sobre a violência contra a mulher, assim como sobre a prática do escracho nos meios militantes goianos. Entendemos que, só assim, poderemos efetivamente caminhar juntos no sentido de criarmos resoluções cada vez mais emancipatórias que, efetivamente, avancem no sentido de construir uma sociedade livre da exploração e da opressão.
Goiânia,
7 de fevereiro de 2018
https://drive.google.com/file/d/1jq8qn7001S6pFPdeEWP0EkEiMjAu0JVD/view?usp=sharing